A cozinha e as memórias do meu pai

Quem me conhece bem, sabe que uma das coisas que mais gosto fazer é cozinhar. Adoro cozinhar para os outros e admitindo um pecado, gosto quando elogiam o que faço.

Comecei a cozinhar regularmente por volta dos 16 anos. Os meus pais sempre tiveram restaurantes e eu tinha de ficar à noite com o meu irmão, instindo sempre em fazer o jantar para os dois. Comecei a fazer bifes com massa e outras coisas simples até começar a ficar mais curiosa em relação aos ingredientes e a diferentes formas de preparar a comida e o meu irmão sofreu muito. Ainda hoje me conta a história de uns bifes cheios de molho de tomate que estavam intragáveis que eu não me lembro de ter preparado.

Com o tempo fui aprendendo receitas, arriscando um bocadinho mais e descobri que cozinhar era algo que me dava verdadeiramente prazer. Enquanto isso via a dedicação e alegria do meu pai a preparar os pratos no restaurante e o orgulho dele quando os elogiavam.

Ao Domingo, no seu dia de folga era ele que geralmente cozinhava as suas sopas alentejanas, açordas, ensopados e outras coisas que eu detestava na alura, mas eu fazia questão de me sentar na cozinha a vê-lo cozinhar só para ver o seu entusiasmo.

Quando o meu pai partiu repentinamente o meu mundo deformou-se. Parte de mim deixou de existir existia e senti-me como se me tivessem amputado alguma coisa interiormente. Já não o ia ver cozinhar o seu caldo de bacalhau à Alentejana, já não iamos partilhar dicas, já não ia ver aquele sorriso rasgado que de tão raro era precioso. A interiorização do que se tinha passado foi muito lenta e dolorosa (até hoje) e ter de aceitar que não o ia ver mais foi (e é) um exercício diário.

No Natal a seguir ao falecimento do meu pai recebi um livro de receitas e, de forma a atenuar a violência do que sentia comecei a cozinhar cada receita desse livro todos os dias e quanto mais cozinhava mais em paz ficava. Porque naquele espaço, na preparação dos ingredientes e na alegria de um prato bem conseguido eu encontrava o meu pai.

Ainda hoje o encontro em tudo o que cozinho quando o faço com dedicação e amor. Especialmente quando faço um caldo de bacalhau à Alentejana.

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