As dormências, as minhas estranhas escolhas e acasos felizes

Quando andava a decidir o que “quero ser quando for grande” por volta dos meus 16 anos, a minha mãe aconselhava-me sempre a tirar o curso de professora. Eu, que nunca tive grande paciência ou jeito para crianças (sendo eu uma criança na altura) dizia sempre que não achava isso grande ideia por causa da questão da paciência e do jeito e depois porque desde que me lembro, que há dificuldades de colocação de professores.

Então, completamente alheada da realidade e a achar que com esforço, dedicação e paixão ia conseguir o emprego dos meus sonhos, optei por escolher Arqueologia… Fiz umas asneiras e desisti durante um semestre inteiro enquanto fui trabalhar como administrativa e depois de voltar a estudar continuei a trabalhar a part-time como administrativa. O trabalho não era nada mal pago, era desafiante, as condições fui eu que as fiz e comecei a dedicar-me mais ao trabalho do que à Licenciatura. E no final do curso achei que tendo em conta que não me tinha saído tão bem academicamente, iria continuar no percurso do trabalho administrativo.

Não sei se é óbvio, mas para mim é agora, que acabei por me sentir extremamente frustrada e desiludida comigo própria por não ter sabido estabelecer prioridades. O trabalho de administrativa não era algo em que eu quisesse fazer uma carreira e quando me mudei para Londres vim com a ideia de prosseguir os meus estudos. Sendo um sítio com tantos Museus, achei que o meu futuro poderia passar pela parte museológica da Arqueologia e comecei a fazer um Mestrado em Museologia, mesmo tendo noção das dificuldades em arranjar trabalho nessa área enquanto trabalhava num call center. Através do meu Mestrado fiz um estágio num Museu, não a trabalhar com Património, mas a trabalhar com um Departamento de Educação.

E como em tantas coisas da minha idade adulta, a minha mãe tinha razão. Eu senti-me extremamente satisfeita por trabalhar com crianças no ambiente museológico. Eu podia partilhar com elas a minha paixão pela História e Arqueologia. Através dos objectos construiamos interesses e provocavamos perguntas. E foi aí que percebi que andei desesperadamente à procura de um caminho que esteve sempre à minha frente.

Isso levou ao meu presente “ano sabático” (as aspas estão aqui porque é o ano da tese) e ao meu voluntariado em Departamentos de Educação em 2 museus e trabalhar como free lancer no museu onde estagiei. Quando fiz uma entrevista para um dos dois primeiros museus, a senhora que me entrevistou, uma antiga professora primária que começou a trabalhar naquele museu há 1 ano, disse-me numa partilha algo inapropriada, mas que teve algum impacto em mim: “Eu ia para o trabalho todos os dias e sentia-me dormente. Agora venho para aqui e enquanto estou a ensinar as crianças sinto-me viva!”.

A insatisfação é boa. Ajuda-nos a fazer mudanças, tal como a mim e à minha actual coordenadora. Infelizmente devido a muitas circunstâncias nem todos podemos fazer as mudanças desejadas imediatamente , mas eu tenho quase 30 anos e ela cerca de 40 e só agora estamos a conseguir trabalhar activamente para fazer o que gostamos. É importante procurarmos a serenidade sem que essa dependa de factores externos, mas acho que o acto trabalhar para ter o emprego que nos faz sentir realizados (se esse for um dos nossos objectivos) é algo que nos traz essa serenidade.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s