Berberes do Alto Atlas

Sentada ao lado do meu gato que esconde o focinho nas patas para bloquear a luz sinto-me grata. Grata por tudo o que me aconteceu até agora, por tudo o que tenho, pelas pessoas que tenho na minha vida (e que negligenciei tanto nos últimos meses). Tenho trabalho para fazer, mas quero registar tudo isto porque o que sinto ainda é tão recente, tão fresco.

Na semana passada estive em Marrocos, o país que tem o condão de mexer em todos os cantos da minha mente, que quebra todas as minhas certezas, dramas e dogmas. Já havia lá estado em 2010 mas por menos tempo e em sítios mais turísticos. Desta vez, depois de termos estado em Marraquexe (uma das cidabeauty reviewdes mais stressantes onde já estive – e eu vivo em Londres), visitámos as zonas rurais de Marrocos. E nem o Lonely Planet me podia preparar para o que vivi, para as pessoas que conheci.

Apresento-vos o Hassan, o nosso guia nas montanhasda cordilheira do Atlas. O Hassan é o filho mais velho e o maior ganha-pão da família de 8 pessoas com quem partilha a casa. Antes de partirmos para as espantosas montanhas que conhece como a palma da mão, o Hassan convida-nos para almoçar na casa da sua família. Uma casa tipicamente berebere, feita em barro, com 4 divisões, uma sala de jantar com bancos almofadados ao longo das 4 paredes. Descalçamos as nossas botas, porque não é educado estarmos calçados na casa de famílias bereberes e entramos para a sala de jantar. Pergunta-nos se queremos usar a wi-fi e não conseguimos conter o espanto, mas afinal ele tem um negócio para gerir. Apresenta-nos a sua sobrinha de 2 meses que cobre de beijos e sorrisos e diz-nos que tinha muitas saudades da pequenina e que já não a via há tanto tempo. Apresenta-nos também o seu tio que antes de cegar ensinou tudo o que o Hassan precisava para ser guia. O carinho que eles mostram um pelo outro é enternecedor e aquece por dentro. O trabalho faz com que o nosso guia passe longas temporadas fora de casa e
não consiga ver a família com a frequência que deseja

A família do Hassan oferece-nos um farto repasto e ele fala-nos sobre o islamismo. Diz-nos que o código de conduta do islão o obriga a ser sempre verdadeiro, a respeitar a família e a pô-la acima de tudo e eu sinto imediatamente vergonha, porque quantas vezes não dei a minha por garantida, com a certeza de que me perdoariam todas as falhas, todos os esquecimentos. Quantas vezes me deixo dominar pelo stress e permito que os outros vejam o pior de mim?

O Hassan diz que inveja a nossa vida a trabalhar confortavelmente num escritório, porque e já é guia há muitos anos e por vezes se sente rabugento por mostrar sempre as mesmas coisas. Mas diz-nos isto com um sorriso nos lábios, cheio de boa disposição e com fé de que as coisas vão melhorar se continuar a trabalhar arduamente.

Depois do almoço partimos para as montanhas acompanhados pelo Hussein e o Omar, irmãos do Hassan. Passamos por aldeias berberes onde as crianças nos tratam como rock stars e nos dão “hi fives”. Pedem 1 dirham (10 cêntimos) e dão sorrisos rasgados. As casas são simples, à excepção das mesquitas presentes em todas as aldeias, as ruas não estão pavimentadas, não há comércio ou hoteis. Passam mulheres por nós com grandes fardos de grama para secar para o Inverno sempre com um “salaam aleikum” (que a paz esteja convosco) nos lábios, passamos por homens permanentemente a trabalhar em novos edifícios na aldeia. O Hassan d
iz-nos que as pessoas de várias aldeias se juntam e trabalham à vez para as populações de cada uma delas, contribuindo com mão-de-obra e dinheiro. Para os muçulmanos daquela zona, não faz sentido não partilhar o que quer que seja com qualquer pessoa, mesmo que tenha mais posses. Mais uma vez me senti envergonhada.

Chegámos ao anoitecer ao nosso albergue onde o Hussein e o Omar, já esperavam por nós. O Hussein cozinhou, o Omar, ainda um miúdo de uns 10 anos, pôs a mesa e o Hassan prosseguiu a sua introdução aos costumes berberes. Quando me deitei exausta na minha cama claramente usada antes de mim, ensanduichada num cobertor pesado pensei que era capaz de fazer isto durante bem mais tempo.

No dia seguinte por entre várias canções berber
es e fotografias chegámos novamente a Marrakech. Palavras não chegaram para agradecer ao Hassan tudo o que nos mostrou. Não apenas por nos ter guiado de forma segura por caminhos que já conhece tão bem, mas por toda a experiência humana, por me ter feito reflectir tanto nas minhas falhas e por ter sido incansável com o seu entusiasmo, mesmo quando falava de aspectos menos bons da vida dele.

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