Devon, o refúgio idílico. E marisco!

“O que vamos fazer no nosso 8º aniversário” foi a pergunta que mais se ouviu cá em casa durante um mês. Pesquisámos destinos e comprometemo-nos com Devon – afinal ficava só a três horas de caminho. O cenário bucólico que os sites que visitámos nos prometeram pareceu-nos ideal para celebrar 8 anos de “juntisse” e dissipar amuos e teimosias recentes,

O Nelson alugou um carro e, uma vez que os quartos noutros sítios já estavam cheios marcou o quarto em Paignton, uma vila da “Riviera Inglesa”.  No Sábado bem cedo partimos em viagem, presos no trânsito de pessoas que queriam escapar a mais um fim-de-semana cinzento em ruas apertadas e cada vez mais arranha-céus. Chovia bastante e como de prever, a moral não estava alta.

Depois de 4 horas e não das 3 que nos prometeram, chegámos finalmente a Paignton. Numa época algures entre o período em que começou a ser aceitavel usar bikini e as viagens lowcost, as cidades e vilas costeiras do Reino Unido eram alvo de grandes peregrinações balneares. E como resultado disso ficaram paradas no tempo e isso não é necessariamente bom. Nos anos 70, a necessidade de acomodação levou à construção apressada de edifícios sem qualquer carácter que ainda existem e que deformam a Riviera Britânica. Paignton é o símbolo de toda esta situação e da ironia que este título tem.

Entrámos no nosso Bed and Breakfast e percebemos imediatamente que, ao contrário dos sítios onde costumamos ficar quando vamos fazer hillwalking, o sítio onde iamos ficar hospedava veraneantes, pessoas que passeavam nas suas sandálias e roupas arejadas. Com as nossas botifarras de solas grossas e equipamento, destoávamos claramente.

Depois de mais uma viagem de 1 hora chegámos ao início do primeiro trilho que nos levava de Torcross até ao farol de Start Point. O trilho prometia constantes vistas marítimas, com passagens pelas famosas praias de cascalho do Reino Unido. O barulho do cascalho misturava-se com as escorregadelas na lama, as vistas de natureza cerrada fundiam-se com pequenas vilas costeiras. Uma destas vilas, Hallsands foi quase inteiramente engolida pelo mar em 1917, fruto de uma combinação de más condições atmosféricas e planeamento de território desastroso. Fizémos o mesmo caminho nas duas direcções, uma vez que a chuva persistente não nos deixou entusiasmar para uma rota circular e terminámos em Torcross.

Spring (3)

Spring (2)

O plano era jantar em Torquay, mas depois de 4 horas a andar debaixo de chuva e ao sentirmos os cheiros deliciosos que escapavam do Star Bay Inn, resolvemos ficar por lá. Um pequeno aparte sobre as roupas de caminhada para senhora: fazem-nos sentir desadequadas em sítios onde toda a gente cheira bem e tem aspecto de ter acabado de sair do duche e vestido a roupa de ir à missa. Os impermeáveis fazem-nos transpirar a sério, mesmo no Reino Unido e não me sentia nada civilizada. Felizmente tinha levado uma muda de roupa extra, mudei-me de forma bastante atabalhoada na casa de banho do parque de estacionamento e fomos para o pub. O que foi uma decisão invulgarmente espontânea para nós (somos um pouco obcecados com o trip advisor) revelou-se uma bela decisão. Comemos tamboril frito a um preço impensavel para Londres. A qualidade da comida e o serviço foram um belo consolo depois de um dia longo. Não há nada que me aqueça mais por dentro que um sítio quente e uma boa refeição no final de um dia de caminhada.

No dia seguinte a caminhada foi de 22 km. Começámos debaixo de chuva torrencial e comemos as nossas sandochas enquanto subiamos e desciamos cerca de 12 montes. Durante uma subida perguntei-me mais uma vez porque é que eu me sujeito a fazer estas coisas, debaixo de condições atmosféricas terríveis muitas vezes. Perguntei-me se o fazia para acompanhar o meu companheiro overachieving ou porque era algo que gostava de fazer. Eu sou uma pessoa hipoactiva. Eu não gosto de fazer exercício e largo-me a subir montes de vez em quando. Mas cheguei ao topo do ultimo monte, olhei em volta para a vista obscura por lencóis de água e percebi que me sujeito a isso porque posso. Porque sou saudável e porque gosto de fazer algo que nem toda a gente faz e porque em última instância estou ao ar livre, rodeada de natureza e a conversa flui livremente, sem pressões de tempo. E porque é algo que ninguém pode fazer por mim.

Spring (1)Spring (4)

No final do percurso, depois de mudar de roupa novamente (o que se revelou um desafio dentro de um carro num parque de estacionamento), fomos para o único pub da vila. Depois da surpresa do dia anterior não nos importámos de arriscar novamente. Grande erro. O Nelson comeu um hamburguer mirrado e eu um empadão tão triste. Apesar do cansaço e do desapontamento mantivemos o humor e prometemos que o almoço do dia seguinte ia compensar o que comemos.

 

No dia seguinte deixei as botas de caminhada de lado e vesti algo mais apresentavel para visitarmos Burgh. Uma ilha menor que fica separada da ilha principal quando a maré está cheia. Conhecida por ter albergado Agatha Christie quando escrevia os seus romances, Burg tem uma beleza invocada pela sua geografia curiosa. Démos a volta à ilha em 2 horas e fomos ter a melhor experiência num restaurante que já tivemos fora de Londres no Oyster Shack em Bigbury-on-Sea. Comemos mexilhão, uma sopa de peixe e marisco cozido num “silêncio comovido e de lágrimas nos olhos” porque finalmente, desde há muito tempo que não comiamos marisco tão bom.

Spring

Terminámos a refeição e o nosso fim-de-semana com a uma disposição completamente diferente da que tinhamos quando iniciámos a nossa incursão no Sudoeste. Devon oferece-nos algumas das melhores coisas do Reino Unido e algumas das piores. Só temos que saber arriscar e encarar as coisas menos boas com sorrisos e bom-humor.

 

 

 

 

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2 thoughts on “Devon, o refúgio idílico. E marisco!

  1. Anita tu és tão linda: “Eu sou uma pessoa hipoactiva. Eu não gosto de fazer exercício e largo-me a subir montes de vez em quando. Mas cheguei ao topo do ultimo monte, olhei em volta para a vista obscura por lencóis de água e percebi que me sujeito a isso porque posso. Porque sou saudável e porque gosto de fazer algo que nem toda a gente faz e porque em última instância estou ao ar livre, rodeada de natureza e a conversa flui livremente, sem pressões de tempo. E porque é algo que ninguém pode fazer por mim.” Que prazer voltar a ler-te. E que inveja de não poder visitar convosco a ilha de Burgh. Beijinhos.

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