Subir montanhas mentais

Quando comecei a subir montanhas foi por graça. Numa viagem improvisada ao parque natural de Brecon Beacons passámos por um pequeno monte que tinha uma geocache no topo. Eu não gosto sub
ir escadas ou ladeiras – o coração ameaça sempre saltar-me do peito e os pulmões reclamam, mesmo na minha melhor condição física. Então foi com um espírito desconfiado que subi o meu primeiro montinho vestida com umas calças de ganga e um casaco pesado.

Não acreditava que fosse chegar ao topo por causa da minha aversão, mas pouco a pouco, olhando para a paisagem e esvaziando a minha mente de qualquer pensamento que não fosse a minha respiração e olhar paraonde estava a pousar os pés, cheguei ao topo. Senti-me superada, orgulhosa por ter ultrapassado uma barreira mental e no final nem foi assim tão difícil!

Depois desse primeiro montinho subi a minha primeira montanha a sério, a mais alta no País de Gales e outras em volta, visitei o Peak District, subi montanhas por cascatas em Dezembro com cordas para me estabilizar e outra debaixo de granizo, frio e vento forte.

Depois de mais de um ano sem visitar o sopé de uma montanha ou fazer qualquer tipo de exercício físico, decidi que ia tentar chegar ao topo do Ben Nevis, a montanha mais alta do Reino Unido. O Nelson fez uma pesquisa sobre as melhores rotas e disse-me que deviamos tentar subir pela parte mais bonita, longa e tecnicamente mais difícil. Não me quis negar a um desafio e procurei coisas sobre essa rota específica e o que li deixou-me assustada: mortes por falta de experiência, cuidado e visibilidade do trilho. Nós não somos experientes, mas não somos principiantes e nunca nos colocamos em situações que nos ponham em risco. Mas depois do que li fiquei com medo de estarmos a substimar as nossas capacidades.

Com esses medos em mente chegava então a manhã da ascensão. Muito nervosa com o nível de exigência começámos a subida. No Reino Unido, nos trilhos turísticos, a National Trust coloca uns blocos de pedra a fazer de degraus, que são altos e o comprimento não é definitivamente o indicado para as minhas pernas. A juntar ao nervosismo, à minha falta de preparação física e aos degraus difíceis, costumo ter umas quebras de açúcar um pouco assustadoras quando faço esforço físico. Depois de 2 km, numa ponte a olhar para um riacho disse ao Nelson que sabia que não ia conseguir chegar lá acima e ele perguntou-me se não queria voltar. Eu já me sentia no limite das minhas forças, mas pensei que não me ia perdoar se não chegasse pelo menos à intersecção do caminho turístico com oque íamos fazer e disse que subiria pelo menos até lá. Com um objectivo mais atingível em mente subi muito a custo e assim que lá chegámos o meu estado de espírito mudou radicalmente. Se tinha chegado até ali, porque não tentar fazer o resto? O pior que podia acontecer era termos de voltar para trás. Depois de uma breve paragem disse-lhe então que queria fazer o caminho pensado inicialmente.

O que senti depois dessa decisão foi um espanto constante em relação à resiliência do meu corpo. Eu só pensava em pôr um pé à frente do outro sem pensar no quanto ainda faltava. Concentrava-me em pequenas metas e com paciência subi a primeira montanha do trilho, extremamente inclinada. Supreendi-me com o facto de não ter ficado tão cansada como nos degraus e era agora a altura de atravessar a aresta da pequena mini-cordilheira, onde acontecem as fatalidades. Apesar de com alguma lentidão e de parecer muito assustador, senti-me sempre segura. Tivemos de fazer um scrambling (movimentar-nos na montanha subindo e descendo blocos de rocha sem corda) leve. A razão pela qual prefiro atravessar uma montanha desta forma é porque temos de esvaziar completamente a cabeça de pensamentos, dúvidas. Só importa a próxima rocha e se está solta ou não. Não é adrenalina que sinto. É concentração, meditação pura.

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A vista da aresta

Depois da aresta chegámos finalmente à encosta do Ben Nevis com mais blocos de rocha. Por esta altura eu já tinha subido duas pequenas montanhas menores e atravessado uma aresta e sentia-me imensamente orgulhosa do feito. Mas quando cheguei ao topo, tenho de confessar que me emocionei. Emocionei-me porque me substimei, porque não fui capaz de pensar na subida em pequenos passos ao início e isso quase que me fez perder aquela sensação de vitória, de exaltação. Emocionei-me também porque acho sempre que não tenho qualidades suficientes para fazer um bom trabalho ou ser uma boa pessoa. Como é óbvio, subir uma montanha não faz de mim nada dessas coisas automaticamente, mas mostrou-me  (mais uma vez) os meus limites físicos e mentais e de como tantas coisas que deixo de fazer por ter medo são apenas montanhas mentais, que tenho de escalar aos poucos, sem pensar exageradamente no topo.

Hoje tenho duas bolhas enormes nos pés que fiz na descida, uma alergia muito inestética na minha testa e os músculos das pernas extremamente doridos. Mas nada disto importa comparando com a minha “re-epifânia”: viver com um objectivo no horizonte, mas com a mente focada exactamente no presente. Porque é que não faço isto sempre? Será que vou conseguir invocar esta sensação sempre que precisar?

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