A natureza luxuriante do Lake District

Sentada num comboio da Virgin Trains que devido à venda excessiva de bilhetes não tinha lugares para todos os passageiros dirigia-me a Oxenholme para ir ter com o Nelson e dois amigos. Estava vestida com roupas de Outono e estava muito calor, tinha acabado uma temporada de trabalho intenso e sentia-me esgotada mentalmente. Essa
temporada levou a um desajuste no encaixe que pensava que a minha vida tinha. A caminho do Lake District tinha inveja das pessoas que mesmo fazendo um percurso de duas horas em pé estavam animadas, iam fazendo o piquenique no corredor do comboio e conversavam alegremente.

O Nelson foi buscar-me à estação e levou-nos até à casa onde estavam hospedados. Assim que cheguei senti-me de férias – o jantar estava feito, havia música e os três contaram-me entusiasmados o dia que tinha passado.

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No dia seguinte parámos o carro numa quinta onde o cheiro a estrume pontuava a atmosfera e apaixonei-me imediatamente pelo Lake District. Montanhas altas de um verde intenso rodeavam-me, o sol ameaçava aparecer e não havia poluição sonora. Começámos a subir e agradeci a uma qualquer entidade superior a força de vontade para as sessões de cardio intermináveis. Nunca me senti em tão boa forma. Na subida conversámos, cantámos, sentimo-nos ofegantes, rimos e chegámos ao topo do Scaffel Pike, o pico mais alto da Inglaterra. As vistas foram obscurecidas pela nuvem que lá passava mas havia uma grande concentração de pessoas lá em cima. Todas orgulhosas, satisfeitas e camaradas. À descida comentámos que era sempre a parte mais aborrecida, porque depois do topo tinhamos que moer os joelhos durante mais 2 ou 3 horas até chegar ao carro. Mas a disposição era tão boa e a paisagem tão rica com o seu verde, cascatas e montes que não nos custou absolutamente nada.

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Striding Edge- os pontos pequeninos são as pessoas que o estão a atravessar

No dia seguinte fizemos a subida do Helvellyn. Depois de uma subida extremamente íngreme mas compensadora pelas vistas chegámos ao Striding Edge, uma aresta entre montanhas com rochas no topo que teriamos de atravessar em scrambling. Scrambling é um género de escalada por rocha e em níveis mais altos tem de se recorrer a cordas. Mas não precisámos desse apoio para o nível que fizemos. Quando vi as rochas que tinha de atravessar não tive dúvidas nenhumas de que o iria fazer. O dia anterior tinha-me mostrado que se não pensasse muito no que ainda faltava fazer o meu cérebro não me ia pregar a partida de me fazer acreditar que não ia chegar ao fim. E foi a motivação das outras pessoas do grupo, não olhar para os lados para não ver a altura alucinante e o entusiasmo que estar a fazer aquilo me provocou que me levou a chegar ao fim. Tenho noção que miúdas com menos 20 anos que eu estavam a subir pelo mesmo lado e que o meu sucesso pessoal é relativo, mas senti-me satisfeita e surpreendida. Mais uma vez, não faço isto para chegar ao topo e ver as vistas, mas pela sensação de realização pessoal. É um objectivo egoísta e individualista, mas o processo todo funciona como uma metáfora da minha vida e da forma como a estou a lidar com ela no momento. Na melhor das hipóteses ajuda-me a pôr coisas em perspectiva e a corrigir o que está mal, na pior vejo coisas deslumbrantes como estas.

 

Checklist para subir montanhas:

  • Camisolas e roupa interior de desporto. É essencial – a transpiração demora muito tempo a secar em roupas de algodão e roupa interior normal é extremamente desconfortável em situações de esforço constante.
  • Boas botas. O pé não se pode mexer dentro das botas e têm de cobrir os tornozelos para evitar lesões. Já torci os pés demasiadas vezes sem mazelas para poder apreciar a importância de umas botas. A sola tem se ser muito aderente – se a subida se fizer por rochas tem de se ter bastante confiança na sola.
  • Ok, eu sei que leggings não são calças, que são reveladoras e um pouco trashy. Tenho calças de caminhada muito confortáveis, mas não há nada tão confortavel como leggings de desporto. São práticas, secam rápido, não se colam às pernas com transpiração e o alcançe de movimentos é mais amplo e natural. Aconselho isto a homens e mulheres. As mulheres já começam a favorecer esta peça de vestuário em subidas exigentes.
  • Um bom grupo. É essencial caminhar com pessoas que tenham níveis de fitness diferentes para que possam puxar uns pelos outros. Convém que também sejam pessoas com alguma resistência ao desconforto. Não há nada mais desmotivante do que haver alguém que baixe a moral com queixas constantes. Eu sei- já fui essa pessoa. Se nesse grupo houverem pessoas que saibam cantar músicas dos Ena Pá 2000, que aceitem fazer uma recriação da cena da proa do “Titanic” e que não se importem de acompanhar uma canção aos altos gritos enquanto fazem uma subida por cascalho é um bonus. Um grande bonus que vai fazer com que se sinta que se pode subir montanhas todos os dias na companhia das pessoas certas.
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